quarta-feira, 23 de março de 2011

Nascentes da região estão desprotegidas

Silva prefere tomar água da mina
(Fotos: Sérgio Teixeira/Folha da Região)
O córrego Machado de Melo é um dos afluentes mais importantes do município de Araçatuba. Antes de desaguar no rio Tietê, o manancial é abastecido por pequenas nascentes, como uma mina d'água localizada na via Agnaldo Fernando dos Santos (estrada Boiadeira), entre o condomínio Habiana e a Vila Aeronáutica. Esta nascente, assim como tantas outras da região, deveria estar protegida por mata ciliar. No entanto, o local está ameaçado pela falta de vegetação nativa e pelo livre acesso do gado.

A mina da Boiadeira, como é chamada por populares, há anos serve como fonte de abastecimento para dezenas de famílias do município. É o caso do aposentado Claudionor Gomes da Silva, 77 anos. "Eu prefiro esta água do que a da torneira, por causa do cloro", afirma.

A mina já sofreu interferências humanas, como a instalação improvisada de um cano. A única vegetação percebida ao seu redor é formada por plantas normalmente encontradas em região de brejos. Para agravar a situação de ameaça nesta nascente, bovinos pastam livremente em seu entorno.

NÚMEROS
A mina da Boiadeira é somente um exemplo dos vários afloramentos de água que precisam de proteção. No ano de 2009, 40 municípios da região tinham identificado 4.432 nascentes, todas cadastradas com coordenadas geográficas. Neste período, haviam 3.910 nascentes desprotegidas, ou 88% do total.

A meta para 2011 é a de identificar um total de 5.208 nascentes, e expandir a recuperação para 1.228. Se a região atingir este objetivo, o porcentual de nascentes desprotegidas seria de 76%.

Os números sobre as nascentes e as metas constam no Pacto das Águas, ato firmado em 2009 pelo Governo do Estado de São Paulo e municípios paulistas. Na região, a adesão ao pacto atingiu 40 cidades, incluindo Araçatuba. Apenas Brejo Alegre, Murutinga do Sul e Turiúba não participam da ação.

O professor Fernando Braz Tangerino Hernandez, da área de Hidráulica e Irrigação da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Ilha Solteira, afirma que a situação dos recursos hídricos "já está crítica".

"A agente se engana. Temos o rio Tietê e o São José dos Dourados e pensamos que temos água por todos os lados. Não temos. Quem sustenta estes rios são os pequenos córregos, que têm a cada ano uma vazão menor na estação seca, fruto da ausência da conservação do solo, das nascentes e áreas de preservação permanente", afirma.

Nascente ameaçada pela falta de vegetação nativa e pelo gado
Hernandez ressalta que a proteção das nascentes é uma atividade que demanda recursos financeiros, políticas públicas e conscientização. "O governo e a sociedade civil têm que trabalhar juntos. Logicamente, os órgãos de imprensa têm um papel fundamental para repercutir esta situação", diz.

É POUCO
O engenheiro Lupercio Ziroldo Antonio, diretor da Bacia do Baixo Tietê e coordenador do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas, explica que a atenção com as nascentes é atualmente uma das prioridades dentro do setor de recursos hídricos.

"Não cuidar das nascentes, em tese, significa desprotegermos um dos pilares do nosso desenvolvimento regional, já que muitas empresas se direcionam para nossa região por aqui ter água em quantidade e qualidade", alerta.

O engenheiro afirma que o trabalho desenvolvido pelo Comitê da Bacia do Baixo Tietê favoreceu o avanço do processo de conscientização e fomento a políticas de recuperação e proteção das águas. "Mas ainda é pouco. Ainda devemos desenvolver processos de planejamento regional para que nossas nascentes estejam efetivamente protegidas."

Nenhum comentário:

Postar um comentário