quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vila de pescadores ‘agoniza’ no rio Tietê

A vila é um dos pontos turísticos
da cidade e para recuperá-la,
o município diz que tenta
recursos do governo federal
Fotos: Paulo Gonçalves/Folha da Região
O pescador profissional Gervásio Rodrigues da Silva, 64 anos, lança há quase 30 anos suas redes de pesca no rio Tietê. Ao longo dos últimos anos, ele viu a quantidade de peixes diminuir ao ponto de ameaçar a existência da Vila dos Pescadores, um dos pontos turísticos do município de Buritama, na região de Araçatuba. "O rio está fraco de peixe. Este ano foi um dos piores", lamenta o pescador, que ainda mora na vila.

A diminuição do pescado fez a Vila dos Pescadores perder moradores. Na década de 1990, 36 profissionais moravam no espaço, que fica às margens do rio Tietê, perto da ponte por onde passa a rodovia Deputado Roberto Rollemberg. No segundo semestre deste ano, os pescadores eram somente nove. O temor daqueles que ficaram é que, se a situação não melhorar, a vila pode chegar ao fim.

Diferentemente da região metropolitana de São Paulo, onde a poluição das águas do Tietê pelo esgoto e lixo compromete severamente a vida aquática, no interior paulista, a ameaça à biodiversidade do rio está relacionada à construção de usinas hidrelétricas e barragens, além da pesca predatória.

Ao lado da Vila dos Pescadores, está instalada a usina hidrelétrica de Nova Avanhandava, que entrou em operação em 1982. "Ele fizeram a barragem e fecharam o rio. Mudou o 'sistema' daqueles peixes que a gente trabalhava na parte de cima do rio. A quantidade diminuiu", reclama Silva. No passado, ele tirava de 70 a 150 quilos de peixe num único dia. Atualmente, este montante varia de 30 a, no máximo, 70 quilos.

EXTINÇÃO
Gervásio da Silva, pescador há 30 anos,
diz que já chegou a pegar
150 kg em um dia; hoje não passa de 70 kg
O pescador também cita a proibição de pesca de algumas espécies de peixes por órgãos de fiscalização ambiental, tidas como em risco de extinção por decreto publicado pelo governo do Estado de São Paulo, como um problema para a atividade. "Estamos pegando pacu, mas este peixe está proibido. Não sei o motivo de proibirem, pois o lugar que mais tem pacu é aqui. Como está proibido em todo o Estado, tem que respeitar. A gente pega o pacu e tem que devolver o peixe para a água."

No Estado de São Paulo, a lista de peixes ameaçados de extinção consta no Livro Vermelho, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Conforme os autores da lista, publicada no ano passado, a sequência de barragens para a construção de usinas hidrelétricas é uma das principais ameaças para diversas espécies de peixes, pois interrompe o fluxo migratório necessário à reprodução.

Além do pacu, também estão ameaçados a piracanjuba, pacu-prata, curimbatá, jurupoca, pintado, jaú, mandi e joaninha-da-corredeira. Estas espécies de peixes são encontradas nos rios Paraná, Tietê e São José dos Dourados, afluentes que passam por municípios da região de Araçatuba e que abrigam hidrelétricas.

A Polícia Militar Ambiental utiliza a lista como base para nortear as ações de fiscalização, conforme prevê a lei federal 9.605/1998, que trata dos crimes ambientais. Pesca em locais não permitidos, falta de licença profissional e retirada de pescado em risco de extinção foram as infrações que mais geraram multas no ano passado para pescadores. No total, foram emitidas 96 multas nos 28 municípios da área do 1° Pelotão da Polícia Ambiental de Araçatuba. Em média, o valor é de R$ 1 mil, mais R$ 20 para cada quilo de peixe retirado irregularmente da natureza.

AMADOR
A pescadora profissional Eliana Evangelista Morcelli, 52, presidente da Associação dos Pescadores Profissionais do Baixo Tietê, critica a pesca amadora desorganizada. Segundo ela, a ação também é responsável pela queda na oferta de peixes. "Se você sair do rio Santa Bárbara vindo para o Tietê (em Buritama), vai ver a grande quantidade de pescadores de varinha (amadores) que tem na água", afirma.

Segundo Eliana, muitas vezes o pescador amador não tem critérios técnicos e acaba pescando todo o tipo de peixe. "O pescador profissional arma uma rede e vai tirar o peixe que a ele interessa. Já o amador, não, ele vai pegar o peixinho pequenininho e vai fazer a maior festa. Estamos cansados de ver isso", alega.

A presidente da associação de pescadores estima que existam 40 pescadores profissionais no percurso do Tietê, entre Promissão e Buritama. Segundo ela, o grupo está tentando se unir para pleitear uma área para investir na piscicultura, com foco na criação de peixes em tanques-rede. Eliana diz que o processo é difícil pelos custos, mas também diz que falta união entre os pescadores profissionais.

TURISMO
A turismóloga da Prefeitura de Buritama, Erika Domingues Caldeira, entende que investimentos são necessários para recuperar a Vila dos Pescadores. "Estamos tentando ajudar de alguma maneira. Hoje, com o Ministério da Pesca, estamos tentando aprender um pouco mais para trazer recursos ao município para isso", afirma, sobre a necessidade de se investir na pesca por meio do tanque-rede.

Erika lembra que os pescadores profissionais possuem cadeira fixa no Conselho Municipal de Turismo, ressaltando que eles são participativos. "Eles vão com a esperança de ajudar o turismo no município, mas também de conseguir alguma coisa para eles, como casar o turismo com a pesca."

Ela lembra que a Vila dos Pescadores é um importante ponto turístico para Buritama. "Muita gente ainda não reconhece que o pescador é um guia turístico da cidade. O turista compra os peixes dele, são levados para pescar, para passear de barco, mas muita gente não reconhece isso ainda."

2 comentários:

  1. O herbicida amplamente usado na agricultura é um exterminador silencioso elimina a erva daninha e escorre para os riachos e mata o fitoplâncton comida dos alevinos.
    Os inseticidas e pesticidas afetam a fertilidade do zooplâncton de todo o meio aquático, esse produto moderno tem um grande e longo poder de atuação.
    As usinas hidrelétricas modificaram o curso natural do rio com isso peixes migratórios não podem mais subir o rio para se reproduzir, o grande lago produziu um ecossistema diferente, assim como introdução de seres importados. O assoreamento da represa e a produção de gazes vão matando lentamente a vida do lago.

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    1. jUS DA NECESSIDADE DE REPOVOAR OS LAGOS COM ESPÉCIES AMAZÔNICAS PARA SUPRIR A COLETA DE SUBSISTÊNCIA DOS PESCADORES HABILITADOS, TAIS COMO: PIRARUCU, MATRINCHÃ E OUTRAS...

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