terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Andorinhas e maritacas estão de volta

Para manter o bico afiado, maritacas costumam roer a capa de fios
Foto: Valdivo Pereira/Folha da Região
O céu de Araçatuba virou palco para milhares de visitantes já conhecidos pela população. Como ocorre todos os anos, as andorinhas estão cumprindo seu ciclo migratório e fazendo de praças seu ponto provisório de repouso. Em busca de proteção e acuadas pela redução da vegetação na zona rural, as maritacas também adotam imóveis como espaços para reprodução. A convivência entre seres humanos e aves silvestres costuma gerar conflitos.

Um recente apagão ocorrido na casa do funcionário público estadual Manoel Martins dos Santos, 45 anos, no bairro Icaray, chamou a atenção do morador. Sem saber o motivo da interrupção no fornecimento de energia, pois o local havia sido reformado há pouco tempo, o morador recorreu a um eletricista. O profissional detectou a causa do problema facilmente, pois já tinha presenciado cena semelhante em outros espaços do município.

As maritacas entraram no forro da residência de Santos e, como têm o hábito de sempre deixar o bico afiado, roeram a capa da fiação elétrica. A ação causou um curto-circuito e deixou o imóvel sem energia elétrica por algumas horas. O morador conta que já vinha notando a presença quase constante destas aves na localidade. "Acho que elas vêm atraídas pelas árvores frutíferas da região", diz.

A solução para Santos será isolar os pontos do forro em que há aberturas que facilitam a entrada das maritacas. Com isso, ele espera que as aves não consigam fazer ninhos dentro do imóvel. "Continuo achando a maritaca um bicho maravilhoso. Acho que a vinda dela para a cidade é culpa nossa, pois cada vez mais elas perdem seu habitat. O jeito vai ser eu me adaptar a elas", afirma.

Geralmente, os moradores buscam isolar as aberturas no telhado com forro de PVC, madeira ou chapa galvanizada. Os custos variam conforme o tamanho da casa e o material utilizado. Em determinadas residências, o valor do serviço pode ultrapassar R$ 1 mil.

REPRODUÇÃO
O chefe do escritório regional do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em Araçatuba, Julio César Zambão, explica que a época de reprodução das maritacas costuma ocorrer de outubro a janeiro, assim como a sua presença mais frequente no meio urbano.

Zambão diz que fechar as entradas dos forros das casas é a melhor forma para impedir que as maritacas se instalem no espaço, impedindo que elas causem transtornos ao morador. Mas ele alerta que essa ação só pode ser feita se a ave já não tiver construído ninho na casa ou esteja com filhotes. Neste caso, o único jeito é esperar até o bicho poder voar e sair do imóvel, pois a Lei de Crimes Ambientais (lei federal 9.605/1998) considera como crime danificar ou destruir ninhos da fauna silvestre.

"É preciso ter paciência, pois vai chegar um ponto em que o filhote conseguirá voar e sairá naturalmente do imóvel. Qualquer ato humano que impeça isso é caracterizado como crime ambiental, sujeito a processo administrativo e criminal", alerta Zambão. A multa é de R$ 500 por ave, além da previsão de detenção de seis meses a um ano, de acordo com a lei federal.

CARENTE
O biólogo José Luís de Carvalho Sales, chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Araçatuba, cita que a região é carente de cobertura vegetal nativa, motivo que faz com que as maritacas procurem as áreas verdes da cidade para procriação. Como em determinados pontos faltam árvores, as aves adotam os forros para chocar seus ovos.

Relatório de Qualidade Ambiental 2011, divulgado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente, mostra que os remanescentes florestais das regiões hidrográficas que cortam os 43 municípios regionais aumentaram de 140.001 hectares, em 2005, para 206.271, em 2009. Mesmo assim, se toda a vegetação que restou fosse juntada, não daria nem para preencher completamente os territórios de Araçatuba e Guararapes (212 mil hectares).

"O que falta na região é uma reserva ecológica de grande proporção para abrigar esses animais silvestres, que hoje perderam espaço para a agricultura", afirma Sales.

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