terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Imagens do lixão ainda estão na memória

Terezinha (boné rosa) passou cinco anos coletando materiais do lixão
Foto: Alexandre Souza/Folha da Região
Há dez anos, a vida da coletora Terezinha Mendes de Souza era bem diferente de hoje. Nesta época, ela e outros moradores de Araçatuba dependiam de materiais recicláveis retirados do antigo lixão.

O espaço foi desativado em 2002, mas ainda deixa lembranças em quem viveu ali. "Uma cena muito triste é de quando a gente achava criancinha morta", se recorda Terezinha, sobre fetos abortados que eram jogados no espaço.

Ela e o marido passaram cinco anos no lixão, época em que construíram um barraco improvisado com lona. Todo trabalho tinha como propósito juntar dinheiro para comprar um terreno e erguer a própria casa. Mas o sonho era constantemente impedido. "Muitas vezes o povo tacava fogo no material da gente. Teve uma vez que puseram fogo no barraco. Nós perdemos tudo", diz.

Além das condições precárias de trabalho, o serviço não permitia nem mesmo que a família tivesse o básico para ter uma vida digna. "Muitas vezes faltou comida. Quando tinha só um pouquinho, repartia para os meus filhos e ficava sem comer", afirma Terezinha, para quem a situação nunca foi motivo para desistir. "Não é porque há pessoas que querem nos derrubar que a gente vai ficar no chão."

A área de 44 mil metros quadrados, que abrigou por quatro décadas o despejo de lixo do município, foi desativada após o aterro sanitário entrar em operação. Depois disso, Terezinha permaneceu trabalhando na coleta de recicláveis, mas ainda por conta própria. Até que ela decidiu se juntar à cooperativa."Na cooperativa eu tenho mais segurança, pois no lixão não tinha proteção de nada. Estávamos correndo o risco de qualquer coisa. Quem olhava a gente era Deus", completa a coletora.

ACERVO
Itens curiosos encontrados na separação dos reciclados estão indo parar no Museu do Lixo, espaço instalado no aterro sanitário. Dentre as peças, está uma coleção de discos de vinil com títulos famosos, de Michael Jackson a Roberto Carlos. Há também uma infinidade de roupas e até um vestido de noiva, além de brinquedos que poderiam ter sido doados a quem precisa.

O ouvidor da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Luiz Antônio Boatto, diz que o museu tem cunho pedagógico. Durante as visitantes programadas de estudantes ao local, os jovens têm a oportunidade de refletir um pouco mais sobre o consumo e a forma como a sociedade trata aquilo que já teve valor um dia.

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