segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Oásis em meio a um deserto de ruas sem árvores


Avenida da Saudade, um dos poucos trechos
bem arborizados em Araçatuba

Fotos: Alexandre Souza/Folha da Região
A arborização urbana é apontada por vários pesquisadores e ambientalistas como importante estratégia para amenizar a temperatura no microclima da cidade. Além de oferecer frutos e lar aos pássaros, as árvores influenciam diretamente no controle da radiação solar, ventilação e umidade relativa do ar.

Apesar de a população de Araçatuba sentir na pele os efeitos do forte calor, que passou dos 40°C nos últimos dias, os benefícios térmicos das árvores ainda são ignorados por muitos moradores. Em média, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade emite 17 advertências por poda irregular ou sem autorização ao mês, problema que afeta diretamente na sensação térmica.

De janeiro de 2011 até outubro deste ano, foram registradas 176 notificações deste tipo. Os casos variam de podas sem autorização, drásticas ou de modelagem artística. Para o infrator, a penalidade varia de duas a cinco mudas para compensação. Mas, neste caso, o prejuízo ambiental ultrapassa o financeiro.

Quando as copas das árvores são danificadas por poda irregular, a ação acarreta em diminuição de massa verde e, consequentemente, perda de sombra. “A sensação térmica acaba sendo maior na ausência da arborização e na redução das copas, pois as árvores contribuem com a diminuição da incidência de calor pelo asfalto por causa da sombra. O movimento das folhas também contribui para a dissipação do vento, gerando uma sensação de brisa”, explica a Secretaria do Meio Ambiente.

CINZA
O biólogo Marcelo Rodrigues Freitas de Oliveira, secretário da ONG Clube da Árvore, compara os exemplos de Maringá (PR) e Araçatuba. No município paranaense, imagens vistas por meio de satélite mostram a presença maciça de copas. No caso de Araçatuba, predomina o cinza do asfalto, com exceções como a avenida da Saudade, onde a vegetação formou um “túnel verde”.

“Quando você passa numa rua sem árvores, você sente o efeito direto da luz solar, mas também percebe o calor vindo do asfalto, de baixo para cima. Mesmo com o pôr do sol, o calor absorvido pelo asfalto continua sendo irradiado, por isso o clima continua quente à noite”, explica Oliveira. Neste caso, os exemplos reais são variados, mas podem ser facilmente percebidos na aridez de corredores comerciais, como as ruas do Fico e Silva Jardim.
Na rua Silva Jardim, há escassez de árvores

UMIDIFICADOR
Outro aspecto destacado pelo biólogo é o fato de a vegetação funcionar como um tipo de umidificador natural pelo processo chamado de evapotranspiração (transpiração das plantas). “No local com arborização, o ar costuma ficar mais úmido. A própria umidade do ar ajuda a dispersar o calor, deixando o ambiente mais fresco”, complementa.

Para Oliveira, é um problema pensar na importância da árvore somente quando o calor se torna insuportável, como nas últimas semanas, e se esquecer do assunto com o retorno da chuva. “Muita gente planta uma árvore, mas depois vira as costas por achar que resolveu o problema. As questões ambientais precisam ser pensadas em longo prazo, começando a agir hoje para que possam ser concretizadas no futuro”, lembra.

DÉFICIT
Estudo apresentado este ano pela Secretaria de Meio Ambiente mostra que a cidade de Araçatuba possui 8% de índice de cobertura vegetal. O valor está muito abaixo em relação aos parâmetros determinados pela ONU (Organização das Nações Unidas), que sugere o mínimo de 30% nas áreas urbanas. Conforme preconiza a entidade internacional, caso o percentual seja inferior a 5%, caracteriza-se como área semelhante a regiões desérticas.

A estimativa é que será necessário plantar pelo menos 15,6 mil árvores, de portes e espécies diferentes, para cumprir a meta traçada pela administração municipal de chegar a 20% de cobertura vegetal, até o final desta década. “Estamos com o objetivo concreto de orientarmos os nossos trabalhos e programas para que, até 2020, Araçatuba tenha 20% de cobertura arbórea”, afirmou o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Jorge Hector Rozas.

CORREDOR
Pesquisas demonstram que os corredores verdes, áreas que dispõem as árvores em formato linear, exercem importantes funções ecológicas. A gestora ambiental Juliana Amorim da Costa apresentou recentemente um estudo, pela Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da USP, sobre o tema.

“A presença de elementos vegetativos urbanos melhora a qualidade de vida do cidadão, uma vez que contribui para diminuir a incidência de ilhas de calor, amenizar inundações e problemas respiratórios”, afirma Juliana. Na pesquisa, ela propôs a criação de corredores verdes na cidade de São Paulo, interligando as subprefeituras da Mooca, Sé e Pinheiros.

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