terça-feira, 21 de maio de 2013

Aquífero Guarani é mais antigo que o homem moderno

Área em azul representa o aquífero Guarani
Ilustração: Daee
As águas subterrâneas retiradas do aquífero Guarani na região de Araçatuba estão armazenadas desde muito antes do primeiro homo sapiens caminhar sobre a Terra, revela um projeto de datação com a participação de pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Para ser mais exato, se passaram 600 mil anos entre a infiltração da água na zona de recarga, área por onde ocorre o abastecimento do aquífero, até se formar o manancial subterrâneo.

A datação foi revelada por amostra recolhida no município de Valparaíso, na região de Araçatuba. Antes deste estudo, que contou com um método de análise mais preciso, o pensamento corrente era que as águas do Guarani não teriam mais do que 40 mil anos, apesar de sua formação remontar à era dos dinossauros. O projeto promete contribuir para a gestão racional dos recursos hídricos, pois, se uma água de 600 mil anos for retirada do subsolo, podem ser necessários mais 600 mil anos para que seja reposta.

O projeto de datação das águas do Guarani teve início no ano de 2009, quando pesquisadores da Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU (Organização das Nações Unidas), contataram grupos de pesquisa da Argentina e do Brasil para a determinação da idade das águas do manancial subterrâneo. A empreitada nacional ficou a cargo do Lebac (Laboratório de Estudos de Bacias), da Unesp de Rio Claro.

COLETA
A amostra do aquífero em Valparaíso foi retirada de um poço em novembro de 2010. O resultado foi comunicado em outubro do ano passado, durante o Congresso Brasileiro de Geologia. A descoberta ganhou a capa de maio da revista Unesp Ciência, publicação mensal de divulgação científica desta universidade pública.

Para a datação mais precisa, o Lebac utilizou o método do criptônio 81, iniciativa que exigiu a utilização de um equipamento específico, desenvolvido nos Estados Unidos e aperfeiçoado no Brasil, mas que permite datar águas de até 1,2 milhão de anos. Até então, os pesquisadores haviam usado o carbono 14 como método de datação, que só pode determinar a idade de águas de até 40 mil anos.

APLICAÇÃO
De acordo com o geólogo Didier Gastmans, um dos integrantes do projeto e pesquisador vinculado ao CEA (Centro de Estudos Ambientais - Unesp de Rio Claro), conhecer a idade do reservatório subterrâneo pode subsidiar a elaboração de um modelo matemático de fluxo, possibilitando a previsão do que pode ocorrer com os níveis d'água em função da retirada atual do aquífero e aquela que pode vir a ser instalada.

"Deve-se considerar que a água existente no Sistema Aquífero Guarani não é infinita, e que as taxas de renovação são extremamente lentas. Para caminhar cerca de 400 quilômetros das áreas de recarga até Valparaíso, se passaram 600 mil anos. Portanto, é importante poder prever o que irá acontecer se ocorrer uma pressão pelo aumento do número de poços, especialmente na região mais distante das áreas de recarga, como é o caso da região de Araçatuba", explica Gastmans.

Além de Valparaíso, foram coletadas mais quatro amostras ao longo de uma linha de fluxo do aquífero, partindo das áreas de recarga no Estado de São Paulo e terminando no município da região, último poço existente antes do rio Paraná, ao longo desta linha. Os pesquisadores aguardam a publicação em revistas científicas para divulgar estes resultados.

Além de Gastmans, outros cientistas estão envolvidos no projeto, como o professor Chang Hung Kiang, também da Unesp de Rio Claro, os pesquisadores da Agência de Energia Atômica, Praddep Aggarwal e Luís Araguás, e Neil Sturchio, da Universidade de Chicago.

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