quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Bioinvasão: espécies exóticas viram ameaça em áreas paulistas

Trecho do rio Tietê, no município de Araçatuba, por onde espécies exóticas avançam em território paulista
Foto: Paulo Gonçalves/Folha da Região
Foi no início dos anos de 1990, sob a falta de conhecimento da tripulação, que uma espécie de molusco viajou mais de 18 mil quilômetros em águas de lastro – matéria pesada que se coloca no fundo de um navio - até chegar à América do Sul. O primeiro contato do mexilhão-dourado em águas sul-americanas ocorreu na Argentina, de onde se expandiu para as porções baixas do rio Paraná e invadiu o estado de São Paulo pelo rio Tietê, na região de Araçatuba.

O molusco, originário de países do leste asiático e rios chineses, é apenas um dos exemplos de espécies exóticas fora de seu hábitat trazendo transtornos em território paulista. A chamada bioinvasão preocupa autoridades de todas as esferas, tendo sido declarada pela União Internacional para a Conservação das Espécies da Natureza como a segunda principal causa de perda de biodiversidade em escala global.

A bióloga Sandra Maria de Melo, da Fatec (Faculdade de Tecnologia) de Araçatuba, explica que nem todas as espécies exóticas são invasoras. “As espécies invasoras apresentam alta taxa de reprodução, crescimento e dispersão e podem gerar impactos nas diversas comunidades. São uma ameaça à biodiversidade, além de acarretar perdas econômicas e prejuízos à saúde humana”, explica.

JAVAPORCO
Estudioso diz que javaporco 'acelerou'  processo de evolução
natural previsto para acontecer em milhares de anos
Foto: Divulgação/Ibama
A infestação do javali e de seu híbrido com o porco doméstico, popularmente chamado de javaporco, chegou a níveis assustadores e obrigou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) a autorizar este ano a caça do animal.

A introdução da espécie começou em 1996, quando foram realizadas importações de linhagens puras originárias da Europa e do Canadá, com foco na criação comercial em terras paulista e gaúchas.

O consenso é que a presença deste bicho na natureza se deu porque exemplares escaparam do cativeiro ou mesmo pela soltura deliberada, com o propósito de caça. O engenheiro florestal Ernesto Sawaeda, que estuda a bioinvasão do javaporco na região de Araçatuba, alerta que a situação é muito grave e merece atenção máxima das autoridades. 

"O javaporco se adaptou ao ambiente em pouco tempo, algo que demora centenas ou milhares de anos para acontecer com outras espécies. Em pouco tempo, um bando da espécie causa erosão e destrói grandes áreas de preservação permanente", afirma o estudioso. 

Sawaeda lembra que o javali é suscetível a diversas doenças. "Ele transmite a febre aftosa. Creio que seja uma questão de tempo para que os javalis do Paraguai, onde não há controle da doença, contaminem o rebanho bovino de estados brasileiros, como São Paulo", prevê. Ele pede que as autoridades tomem atitudes mais rigorosas para frear a proliferação do mamífero.

NAS ÁGUAS
Peixes exóticos são alegria de pescadores,
mas podem trazer desequilíbrio
Foto: Paulo Gonçalves/Folha da Região
O banco de dados organizado pelo Instituto Hórus, que trabalha com desenvolvimento e preservação ambiental, listou 20 espécies exóticas presentes na região de Araçatuba.

São animais e plantas trazidos de outras áreas pelo ser humano e que, em muitos casos, estão relacionados ao desequilíbrio ambiental, além de prejuízos econômicos e sociais.

Tucunaré, carpa, peixe CD, corvina, tilápia e piranha são peixes exóticos que podem ser encontrados no rio Tietê, entre Buritama e Pereira Barreto. Eles foram trazidos nas últimas décadas para a pesca esportiva e comercial. Apesar de garantirem a diversão e o sustento de muitos pescadores, são apontados como nocivos, por competirem com as espécies nativas.

Natural da Ásia Central, a carpa pode ser encontrada nos reservatórios de Buritama e Promissão, ambos no Tietê. Conforme o banco do Hórus, este peixe é hospedeiro de um parasita que vem causando enormes prejuízos à piscicultura, sendo necessário o emprego de produtos altamente tóxicos e, por vezes, a eliminação de todo o plantel.

BANHISTAS
Garrone Neto: 'Modificações ambientais
feitas por obras trouxeram arraias'
Foto: Divulgação
Três espécies de arraias de água doce, conhecidas por poder provocar ferimentos muito dolorosos em humanos, estão colonizando o Alto Rio Paraná, que inclui os municípios de Castilho, Ilha Solteira e Itapura. Nos últimos anos, pelo menos 31 pessoas foram ferroadas pelo animal nesta região, um ataque doloroso e perigoso para as pessoas mais sensíveis.

O biólogo Domingos Garrone Neto explica que a colonização dos rios Paraná e Tietê pelas arraias, e também por outras espécies de animais aquáticos que não são nativos do estado de São Paulo, apresenta ligação com as modificações ambientais feitas por obras de engenharia na bacia do Alto Paraná. 

Há 31 anos, era inundada uma imensa área no Paraná para abastecer a maior usina hidrelétrica do mundo - Itaipu. Com a inundação, sumiram as famosas Sete-Quedas de Guaíra, que submergiram em outubro de 1982 e serviam de barreira natural a arraias e outras espécies de peixes comuns no Baixo e Médio Paraná.

“Ainda não há registros de desequilíbrio ambiental na região, como o desaparecimento de espécies aquáticas, devido ao processo de colonização fluvial das arraias”, diz o biólogo. Ele explica que o animal está se adaptando aos rios Paraná e Tietê por causa das condições físicas favoráveis e pela falta de predadores naturais.

ALTERNATIVAS
O mexilhão-dourado provoca danos ao reservatório da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, operada pela Cesp (Companhia Energética de São Paulo) no município de mesmo nome, no rio Paraná. A companhia investe cerca de R$ 190 mil por ano para o controle do molusco, pois ele provoca entupimento de tubulações.

Pesquisadores se esforçam para encontrar alternativas que minimizem a bioinvasão. Para os tecnólogos em biocombustíveis Andréa Meiado Chiarioni e Marcel Ricardo da Silva, os dias de praga do mexilhão estão contados. Eles buscam alternativas para usar o molusco na correção da acidez dos solos cultivados com a cana-de-açúcar e também como fertilizante natural. 

O objetivo da pesquisa é unir o uso de um produto ecologicamente renovável com a necessidade de controle da bioinvasão. "Com a intensificação do fluxo de embarcações pela hidrovia Tietê-Paraná, as chances de a bioinvasão atingir áreas ainda não afetadas torna-se um risco iminente", argumenta Andréa, sobre a importância do estudo.

Andréa e Marcel querem alternativa sustentável
para controlar proliferação de molusco invasor
Foto: Valdivo Pereira/Folha da Região
No entanto, como as novas pesquisas demandam tempo e recursos nem sempre disponíveis, a bióloga Sandra afirma que é preciso alertar imediatamente para o perigo da bioinvasão. “A principal forma de combater é a conscientização da população, que é o principal vetor na disseminação de espécies, principalmente para uso ornamental ou cultivo”, diz. 

Ela lembra que as medidas a serem tomadas contra o problema ainda são debatidas, mas o controle precisa ser feito de acordo com cada espécie e de cada região. “O Ministério do Meio Ambiente está trabalhando na elaboração de um documento com uma estratégia nacional para prevenção, controle, monitoramento, manejo e, se possível, erradicação dessas espécies. Mas as ações dependem de vários ministérios, de uma legislação adequada, de fiscalização e integração entre órgãos de vigilância”, completa.

Por Sérgio Teixeira

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