quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Biólogos querem recuperar vida na Lagoa das Capivaras

Planta aquática forma 'tapete verde' na Lagoa das Capivaras
Fotos: Paulo Gonçalves
A Lagoa das Capivaras despertou o interesse de biólogos que querem encontrar alternativas para resgatar a biodiversidade no espaço. Localizado dentro do Peba (Parque Ecológico Baguaçu), em Araçatuba, o pequeno lago tem um histórico de poluição e atualmente sofre com os baixos níveis de oxigênio, acidez na água e a infestação de plantas aquáticas.

A Fatec (Faculdade de Tecnologia) de Araçatuba começou a pesquisar este ano se o "tapete verde" formado na lagoa por uma planta aquática, conhecida pelo nome de alface d'água, possui eficiência na produção de biogás e biofertilizante. O estudo é da bióloga e aluna do curso de tecnologia em biocombustíveis Bruna Nicoleti Santana, com orientação da bióloga Sandra Maria de Melo.

"O problema da lagoa se deve à carga excessiva de matéria orgânica. Essa planta vai morrendo e, como a lagoa não tem fluxo, o material se deposita no fundo da água. Ali, as bactérias decompõem essas plantas e acabam usando o oxigênio da água", conta Sandra. Conforme ela, a falta de oxigenação e os níveis de acidez, constatados em exames de laboratório, limitam a biodiversidade aquática da lagoa.

BIOIDEIA
O interesse dos pesquisadores é diminuir a alface d'água na lagoa e, consequentemente, melhorar os níveis de oxigenação dando um uso nobre à erva aquática. Assim como o lixo doméstico, resíduos da lavoura e dejetos de animais são utilizados como insumos para produzir biogás e biofertilizante, as pesquisadoras também apostam no potencial da planta para essa finalidade.

"O foco é a produção do biogás e do biofertilizante, mas eu também quis fazer uma associação com a sustentabilidade. Sempre percebi a falta de biodiversidade na lagoa, então, seria muito interessante trazer a vida de volta ao espaço", explica Bruna. Na atual etapa, o projeto está na fase de formatação para, posteriormente, começar a coleta da alface d'água e a elaboração do biodigestor que fará a produção de gás e este passará por exames. Os resultados serão apresentados no segundo semestre do próximo ano.

"Precisamos ver a eficiência da produção de biogás com essas plantas aquáticas. Se for viável, poderíamos propor muitas coisas, como uma usina de biodigestão para, quem sabe, ajudar a abastecer e a economizar um pouco de energia elétrica na região", diz Sandra, fazendo a ressalva que isso teria um custo. "Mas o que não custa nada é passar essas plantas por biodigestão para servir como adubo em plantações de cana-de-açúcar ou para o gado se alimentar."

HISTÓRIA
A Lagoa das Capivaras tem cerca de 3,2 mil metros quadrados, seu acesso é restrito e pode ser parcialmente observada por quem caminha na avenida Waldir Felizola de Moraes. Recebeu esse nome por ser o habitat principal de vários grupos de capivaras que habitam o parque. Além de suas nascentes, ela é parcialmente abastecida pela Lagoa da Pedreira, por uma tubulação, e está conectada ao ribeirão Baguaçu.

Grupo de capivaras nas imediações da lagoa
Antes de começar a história do Peba, criado por decreto de 1988, a Lagoa das Capivaras sofreu inúmeras agressões. Até o ano de 1987, funcionou dentro dessa área uma usina de processamento de sebo que reaproveitava a gordura retida na boca de saída do esgoto a céu aberto do antigo frigorífico, onde hoje está a Unip (Universidade Paulista). Também dividiu espaço com uma antiga pedreira, lembrada hoje pelos restos de madeira e ferro no local.

No processo de luta para transformar a área em um parque ambiental, foi constatado que a lagoa estava completamente poluída e abandonada, pois as águas com resíduos do processo de purificação do sebo eram lançadas nela sem qualquer tipo de tratamento. Sandra pretende, em breve, enviar amostras de água do local para saber se há presença de metais pesados que possam ser resultado do passado de poluição.

PERNILONGO
Embora a Lagoa das Capivaras tenha características que inviabilizam a biodiversidade, ilustrada pela ausência de peixes, isso não impede que outros seres vivos se desenvolvam no local. Um deles, em especial, causa preocupação na bióloga Sandra Maria de Melo. Estudos realizados desde 2009, sob acompanhamento desta pesquisadora, revelaram a presença de larvas de mosquito do gênero culex.

O pernilongo pode ser vetor de um parasita responsável pela filariose, doença humana também conhecida como elefantíase. O problema é caracterizado pelo aumento excessivo do tamanho de membros no ser humano, que é a fonte primária de infecção: o parasita é transmitido de pessoa para outra pessoa por meio da picada do mosquito.

Ecólogos falam sobre o futuro da Lagoa das Capivaras
Onédio (esq.), Jorge Rozas, Sandra e Bruna
Sandra lembra que ainda não foram feitos exames laboratoriais nos mosquitos, por isso não há informação se o inseto está ou não com o parasita da doença. A análise está prevista para acontecer em breve. "A minha preocupação é com o futuro, em não aumentar essa incidência do mosquito. Se a gente pode detectar no começo, por que não prevenir?", argumenta Sandra.

A bióloga explica que para diminuir a proliferação do pernilongo seria preciso drenar a lagoa. "O culex adora água parada. Minha sugestão é que não basta limpar a lagoa, retirando as plantas aquáticas, é preciso ter canalização de entrada e saída para a água circular", diz.

Para Sandra, se forem adotadas a drenagem e a retirada da alface d'água, a vida retornaria à Lagoa das Capivaras. "Vai ser possível criar um elo alimentar na lagoa, um fluxo de energia que é exatamente o que os biólogos e a natureza gostam", garante. Sobre como evitar o pernilongo por quem caminha na avenida, o uso de repelente é boa estratégia.

EQUILIBRADA
O ecólogo Onédio Garcia da Silveira Júnior, coordenador do Peba, se diz favorável a uma intervenção na Lagoa das Capivaras apenas se for comprovado que a presença de pernilongos ameaça a saúde pública. Caso contrário, afirma que seria uma ação prejudicial ao espaço, que abriga aves e jacarés.

"A lagoa está mais do que equilibrada. É um ecossistema que vive por conta própria com a oxigenação que tem", defende Silveira Júnior. Como exemplo, ele cita o pássaro jaçanã, espécie adaptada à locomoção sobre plantas aquáticas e que adora se alimentar de pequenos insetos que ficam sobre a superfície.

Por enquanto, a Secretaria Estadual de Saúde informa que não teve registro de internação de pacientes por filariose este ano e em 2012 na área de cobertura do departamento regional de saúde de Araçatuba, formada por 40 cidades. A Santa Casa de Araçatuba informou não ter estatísticas de atendimentos sobre patologias, incluindo a filariose.

Apesar de não haver números que comprovem que o pernilongo da lagoa seja, de fato, um problema, o secretário municipal de Meio Ambiente, Jorge Hector Rozas, diz que a administração local estará bastante atenta ao assunto. Conforme ele, a pesquisa em andamento da Fatec é importante para subsidiar qualquer intervenção na lagoa, pois haveria a necessidade de se obter autorização da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). "Com essas informações, eu posso pleitear técnicas e recursos para um futuro projeto na lagoa, se for o caso", afirma.

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