quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Doenças ligadas à poluição matam mais que acidentes

É fogo: queimadas em plantações de cana-de-açúcar
agravam situação do ar e podem piorar níveis de poluição
Foto: Alexandre Souza/Folha da Região
Estudo coloca Araçatuba com o terceiro pior ar do Estado de São Paulo, à frente de municípios com maior atividade industrial e frota de veículos, como a Capital, São Bernardo do Campo e Santos. Divulgada anteontem pelo instituto Saúde e Sustentabilidade, a pesquisa revela que as internações por doenças ligadas à poluição atmosférica consumiram mais de R$ 874 mil da rede pública no município.

O levantamento considerou dados disponíveis para 29 cidades paulistas que possuem estações de monitoramento do ar da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) até 2011. O poluente escolhido para a análise foi o material particulado - constituído de poeiras, fumaças e todo tipo de material sólido e líquido que se mantém suspenso no ar por causa de seu pequeno tamanho.

Na média, em 2011, Araçatuba registrou 28,76 MP2,5 (microgramas de material particulado fino) por metro cúbico, quase o triplo do padrão considerado ideal pela OMS (Organização Mundial de Saúde), que é de 10. Os MP2,5, por serem finos, podem atingir os alvéolos pulmonares e agravar doenças respiratórias. As principais fontes de emissão de particulado para a atmosfera são: veículos automotores, processos industriais, queima de biomassa e poeira do solo suspensa no ar.

No estudo divulgado, o resultado de Araçatuba só é melhor do que Cubatão (39,79) e Osasco (30,03). Para a médica Evangelina Vormittag, presidente do instituto Saúde e Sustentabilidade, a situação local é "preocupante". "No caso de Araçatuba, eu acho que os veículos influenciam como fonte emissora de poluentes, mas, sem dúvida, tem a questão da queima da palha da cana-de-açúcar que interfere", comenta, sobre as causas da poluição.

Conforme Evangelina, o estudo abre espaço para futuras pesquisas relacionadas às fontes de poluição. Como exemplo, ainda não há explicação para o fato de Ribeirão Preto, que registrou 7,4 mil hectares de cana queimada em 2012 e frota de 425,6 mil unidades no ano da pesquisa, ter índice de material particulado bem inferior ao de Araçatuba, onde o registro oficial indica 6,8 mil hectares colhidos após o uso de fogo e 132,1 mil veículos no período da pesquisa.

O instituto que fez o estudo é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) fundada em dezembro de 2008, e com sede na Capital. O trabalho foi apresentado esta semana no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo.

MORTES
A quantidade de mortes que podem estar relacionadas à poluição do ar registrada em Araçatuba chegou a 110 casos no ano de 2011, considerando óbitos por doença pulmonar obstrutiva crônica, doença cardiovascular e pneumonia, conforme dados do Ministério da Saúde. O número supera os 51 óbitos por acidentes de transportes registrados para o município no mesmo período da pesquisa.

"No caso de câncer, cada indivíduo nasce com um risco de desenvolver a doença. Àqueles que são mais vulneráveis, o efeito tóxico de poluentes pode ser decisivo no desenvolvimento do câncer", comenta Evangelina. "O estudo, como um todo, surpreendeu. Nós não temos nenhum município abaixo dos níveis preconizados como toleráveis pela OMS", completa.

A Cetesb disse que não vai comentar o estudo por desconhecer sua metodologia, mesmo que os responsáveis tenham utilizado dados do governo. "Além disso, desconhecemos os pressupostos desse estudo, que incluiu Araçatuba no rol das cidades mais poluídas, uma vez que a região é uma das poucas no Estado que não se encontra em zona saturada ou em vias de saturação por poluição do ar", destacou.

AVALIAÇÃO
O objetivo do estudo sobre a qualidade do ar respirado em cidades paulistas é realizar uma avaliação dos dados ambientais de poluição atmosférica, estimativa do impacto em saúde pública (mortalidade e adoecimento) e sua valoração em gastos públicos e privados, segundo o instituto Saúde e Sustentabilidade.

A médica Evangelina Vormittag explica que, no corpo humano, o material particulado focado nessa pesquisa tem efeitos causadores de doenças respiratórias. "São números atualizados e de extrema importância para a sociedade lutar por medidas práticas que possam melhorar o ar que respiramos, como a obrigatoriedade da inspeção veicular", afirma.

O gasto público com internações por doenças que podem ser atribuíveis à poluição na cidade de Araçatuba foi em torno de R$ 874 mil em 2011, quando foram computadas 35 internações por câncer no pulmão, 159 por doença cardiovascular, 122 por problemas respiratórios em adultos e 102 por problemas respiratórios em crianças, totalizando 417 casos.

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