terça-feira, 6 de maio de 2014

A poluição que a 'tecnologia' não vê (ou finge não ver)

Fumaça de queimada em canavial pôde ser vista
ao longo da rodovia Elyeser Magalhães; estação de
monitoramento "não viu"
Foto: Raiany Guimarães/Folha da Região
Assim como a maioria dos moradores de Araçatuba, a tarde de ontem (dia 5) foi de bastante trabalho em casa, varrendo fuligem do quintal. Por conta de mais uma queimada em canavial (estava demorando), a cidade foi encoberta por uma nuvem cinza de poluição. Quem passou o dia em local fechado e, de surpresa, foi à rua, até pensou que uma frente fria se aproximava. Que nada. Era fumaça mesmo.

Até não muito tempo atrás, fuligem no quintal era o único "termômetro" para saber se o ar respirado pelo araçatubense estava "bom" ou "ruim". No entanto, no dia 7 de novembro de 2008, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) começou a monitorar a qualidade do ar no município. A autarquia paulista inaugurou, no bairro Dona Amélia, uma estação de monitoramento, somando-se às dezenas que possui no Estado de São Paulo.

O equipamento está configurado, basicamente, para acompanhar os níveis de MP10 (partículas inaláveis) e O3 (ozônio), além de alguns outros parâmetros meteorológicos, como velocidade do vento e umidade do ar. Para que se tenha uma base avaliativa, são utilizados padrões. Conforme o nível de determinado poluente avança, altera-se também a classificação do dia (bom; moderado;ruim, muito ruim; péssimo).

Há praticamente um ano, este padrão ficou mais rigoroso. Os padrões usados antes do decreto 59.113, publicado em 24 de março de 2013, tinham mais de 20 anos e estavam até três vezes mais tolerantes do que os estabelecidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Um dos exemplos é o MP10, cujas fontes de emissão podem ser veículos automotores, processos industriais, queima de biomassa e elevação de poeira do solo.

Conforme o decreto, as mudanças serão em etapas. Imediatamente, o limite foi reduzido de 150 para 120 microgramas por metro cúbico para o material particulado. A nova regra também prevê a meta de adotar o padrão limite de 50 microgramas por metro cúbico, mas isso ocorrerá a partir de análises da situação para que a agência defina quando entrará em vigor o valor mais rígido, sem uma previsão de prazo.

Com base nestas regras (baseadas no decreto paulista), o dia 5 de maio, data em que Araçatuba anoiteceu coberta por uma nuvem negra de fumaça poluente, com fuligem se espalhando pelos quatro cantos da cidade, representou apenas a classificação de "qualidade moderada do ar" para material particulado e "boa" para o ozônio. Tentei explicar isso aos meus pulmões, mas eles não acreditaram: "o ar está péssimo, responderam."

Na verdade, a estação de monitoramento instalada no bairro Dona Amélia não está quebrada. Ao menos não que este jornalista saiba. A razão é simples: por mais que o Governo Paulista tenha tornado mais rígido o padrão da qualidade do ar, ainda está bem mais flexível em comparação aos padrões internacionais. Para a OMS, ar "respirável" não pode ultrapassar 50 microgramas por metro cúbico de material particulado. E ponto.

No dia 5 de maio, Araçatuba registrou 65 microgramas por metro cúbico de material particulado, um "problemão" para o padrão adotado pela OMS, mas apenas um "alerta", se a visão for com base no padrão adotado pela Cetesb. Ainda que se diga que São Paulo está dando um exemplo, pois a maior parte do mundo simplesmente ignora o padrão mais rígido da OMS, isso não pode ser uma desculpa: poluição, sem sombra de eventual dúvida, mata.

PREJUÍZOS
Estudo divulgado em setembro do ano passado colocou Araçatuba com o terceiro pior ar do Estado de São Paulo, à frente de municípios com maior atividade industrial e frota de veículos, como a Capital, São Bernardo do Campo e Santos. Divulgada pelo instituto Saúde e Sustentabilidade, a pesquisa revela que as internações por doenças ligadas à poluição atmosférica consumiram mais de R$ 874 mil da rede pública no município.

Na média, em 2011, Araçatuba registrou 28,76 MP2,5 (microgramas de material particulado fino) por metro cúbico, quase o triplo do padrão considerado ideal pela OMS (Organização Mundial de Saúde), que é de 10. Os MP2,5, por serem finos, podem atingir os alvéolos pulmonares e agravar doenças respiratórias. As principais fontes de emissão de particulado para a atmosfera são: veículos automotores, processos industriais, queima de biomassa e poeira do solo suspensa no ar.

No estudo divulgado, o resultado de Araçatuba só é "melhor" do que Cubatão (39,79) e Osasco (30,03). Para a médica Evangelina Vormittag, presidente do instituto Saúde e Sustentabilidade, a situação local é "preocupante". "No caso de Araçatuba, eu acho que os veículos influenciam como fonte emissora de poluentes, mas, sem dúvida, tem a questão da queima da palha da cana-de-açúcar que interfere", comenta, sobre as causas da poluição.

MORTES
A quantidade de mortes que podem estar relacionadas à poluição do ar registradas em Araçatuba chegou a 110 casos no ano de 2011, considerando óbitos por doença pulmonar obstrutiva crônica, doença cardiovascular e pneumonia. O número supera os 51 óbitos por acidentes de transportes registrados para o município no mesmo período da pesquisa.

"No caso de câncer, cada indivíduo nasce com um risco de desenvolver a doença. Para aqueles que são mais vulneráveis, o efeito tóxico de poluentes pode ser decisivo no desenvolvimento do câncer", comenta Evangelina. "O estudo, como um todo, surpreendeu. Nós não temos nenhum município abaixo dos níveis preconizados como toleráveis pela OMS", completa.

Como se percebe, a tecnologia até está dando conta de ver a poluição. Mas os olhos humanos, talvez fechados pela fuligem, não dão conta de enxergar.

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