quarta-feira, 23 de março de 2016

Governo federal descarta usina nuclear no rio Tietê

Angra 1, primeira usina nuclear brasileira
Foto: Divulgação
Quase dez anos depois de ser cotada como sede de uma usina nuclear, a região de Araçatuba está oficialmente descartada dos planos do governo federal para receber um empreendimento do tipo. A Eletronuclear confirmou, com exclusividade à Folha da Região, que conduziu estudos na bacia hidrográfica do Baixo Tietê, mas que há fatores que inviabilizam a instalação neste território de planta geradora de energia à base de material radioativo.

A série de protestos que engajou a região contra a possibilidade de instalar uma central nuclear - entre a usina hidrelétrica de Ibitinga e a foz do rio Tietê, em Itapura - teve início em 2007. À época, a proposta foi anunciada pela presidência da Eletronuclear, empresa de economia mista, subsidiária da Eletrobras e que atualmente responde pela geração de aproximadamente 3% da energia elétrica consumida no Brasil, por meio de Angra 1 e 2, ambas no Rio de Janeiro.

O estopim para a polêmica veio com o Plano Nacional de Energia 2030, desenvolvido entre os meses de dezembro de 2005 e abril de 2007. Elaborado pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o estudo considera um mínimo de quatro novas usinas de geração nuclear em operação até o ano de 2030. Para isso, o Ministério de Minas e Energia determinou que a Eletronuclear conduzisse pesquisas de localização para a construção dos empreendimentos.

Esses estudos, que no início se concentraram na região nordeste, foram estendidos para outras áreas do País. Dentre os territórios investigados, está a bacia hidrográfica do Baixo Tietê, na qual está a maior parte dos municípios que formam a região de Araçatuba, incluindo a cidade-sede.

A possibilidade, porém, foi anulada com a aplicação de critérios que tratam de temas como saúde e segurança, meio ambiente, socioeconômicos e de engenharias e custos. À Folha, a Eletronuclear informou que a bacia do Baixo Tietê foi estudada - o período que isso aconteceu não foi revelado -, mas que não apresenta potencial para instalação de usina nuclear "devido à existência de fatores de exclusão de elevada relevância".

ÁGUAS
Um dos fatores primordiais de exclusão é a localização de importantes aquíferos na região. Em um cenário de desastre ambiental, que precisa ser considerado para a instalação desse tipo de empreendimento, a recuperação do dano seria incalculável em se tratando das águas subterrâneas.

A região de Araçatuba conta com praticamente três aquíferos: Bauru, com profundidade de cerca de 150 metros; Serra Geral, cuja espessura varia entre 100 e 1,2 mil metros; e o Guarani, com profundidade abaixo de 1,1 mil metros. Os usos da água subterrânea começam na agricultura, passam pela indústria e culminam com o abastecimento público.

"Outro critério considerado importante para a exclusão desta área foi a sua estabilidade do solo que, nos locais considerados propícios, não apresentavam boa qualidade ou eram ruins para a instalação de uma unidade nuclear", declarou a Eletronuclear. As informações sobre o assunto foram concedidas à Folha por meio da Lei de Acesso à Informação.

FUTURO
Agora, conforme a empresa, caberá ao Ministério de Minas e Energia a definição do cronograma de implantação das novas usinas, bem como a efetiva definição do local escolhido. O nordeste é o principal candidato, por enquanto. Segundo declarações do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, o sistema de construção utilizará um modelo misto, com participação do setor estatal e de agentes privados.

A potência considerada para cada usina é de cerca de 1 mil MW, o que significa 4 mil MW instalados com esses quatro empreendimentos. A Eletronuclear ponderou que, em 2015, a geração térmica convencional no Brasil esteve sempre acima dos 12 mil MW, o que significa uma geração na base a partir de combustíveis fósseis "com elevado custo e grande emissão de gases de efeito estufa". "A instalação de quatro novas usinas nucleares ajudará a amenizar esse quadro de dependência de geração térmica convencional", ressaltou.

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