segunda-feira, 18 de abril de 2016

Projeto na região cria ‘big brother’ com suçuarana

Equipe instalou 44 armadilhas fotográficas no entorno da usina
hidrelétrica de Promissão. Fotos: Instituto Pró-Carnívoros

Um grupo de onças-pardas ganhou ares de celebridade na bacia do Baixo Tietê. Os felinos foram registrados em seu habitat por armadilhas fotográficas. Três exemplares da espécie têm seus passos monitorados hora a hora. O que parece um "big brother ambiental", na verdade, faz parte de um projeto que promete ser uma esperança para o futuro da espécie, vítima de atividades humanas.

Desde o final de 2013, felinos que vivem na área influenciada pela usina hidrelétrica Mário Lopes Leão, no rio Tietê, em Promissão, são alvos de interesse no projeto "A Onça-parda na Bacia do Rio Tietê". A ação, parceria entre a empresa de energia AES Tietê e o Instituto Pró-Carnívoros, busca a preservação desta espécie.

Uma das etapas mais curiosas do projeto, ainda em andamento, é o monitoramento de três suçuaranas (outro nome da onça-parda) por meio de rádio/colar. Elas foram capturadas no ano passado, com armadilhas colocadas em locais estratégicos onde o bicho costuma passar. Depois de sedado, examinado e medido, cada um recebeu o aparelho.

A tecnologia utilizada no dispositivo instalado nos animais funciona por sistema de GPS. O aparelho montado nas coleiras das onças registra as localizações delas a cada hora e envia os dados para um satélite, que os retransmite para computadores aqui na Terra. O trajeto dos felinos é mostrado em um mapa, oferecendo informações valiosas sobre o uso do habitat e hábitos dos animais.

O trio monitorado é formado por um macho e duas fêmeas. Por enquanto, a equipe à frente do estudo constatou que as fêmeas continuaram a utilizar as mesmas regiões onde foram capturadas, incluindo os próprios locais das capturas, em áreas dos municípios de Barbosa, Avanhandava e Promissão. 

Já o macho, capturado no entorno de Promissão, não continuou nesta região, pois era jovem e estava estabelecendo território. "Após dez meses de monitoramento, ao que tudo indica, essa onça estabeleceu seu território em uma área a 85 km a sudeste da região de captura, no entorno de cidades como Pongaí (região de Bauru)", diz a analista de meio ambiente da AES Tietê, Tatiane Cristina Rech.

Segundo ela, a análise prévia das localizações das onças indica que a espécie é, de fato, bastante adaptável. "No entanto, embora as onças-pardas consigam se movimentar por áreas de canaviais, pastagens, sedes de fazenda e currais, elas ainda precisam e fazem uso intenso das áreas remanescentes de vegetação natural. Utilizam, inclusive, as áreas que foram restauradas pela AES Tietê no entorno do reservatório da usina hidrelétrica Promissão", explica.

FLASH
Antes da captura e colocação do rádio/colar, a equipe instalou 44 armadilhas fotográficas no entorno da usina. As mais de 700 imagens capturadas ao longo de um ano possibilitaram a identificação estimada de sete indivíduos, naquele período. Dentre as cenas, diurnas e noturnas, está a de uma suçuarana "curiosa", que foi flagrada bem próxima à lente. 

Nos próximos meses, o projeto deverá intensificar o estudo do uso do habitat pelas onças e a busca por suas presas. No futuro, a equipe de pesquisa deverá estudar a relação das onças com os moradores e intensificar a educação ambiental. De acordo com Tatiane, o objetivo é usar a onça-parda como "espécie bandeira" para ilustrar a importância de sua conservação para garantir a qualidade ambiental na região onde está inserida.

Atividades do homem estão no topo das ameaças


Suçuarana e outros animais silvestres enfrentam batalhas diárias pela sobrevivência na região de Araçatuba, e não é exagero afirmar que as atividades humanas estão no topo das ameaças. Se no passado havia 1.856.538 de hectares de Mata Atlântica nos 43 municípios do território, dados recentes mostram que o bioma tem apenas 95.517 hectares remanescentes, ou 5,1% da área original.

Muitas onças-pardas acabam sendo recolhidas pelos serviços de proteção, por estarem na zona rural habitada (em busca de alimento) ou nas proximidades de rodovias (vítimas de atropelamentos, inclusive). Nos últimos dois anos, a Polícia Militar Ambiental contabilizou nove apreensões dessa espécie, na região.

É nesse cenário que o projeto da AES Tietê com o Instituto Pró-Carnívoros pretende ser um aliado à preservação da espécie. A atividade, que não tem caráter de compensação ambiental pela geração de energia, é desenvolvida por uma equipe multidisciplinar, composta por biólogos, veterinários, engenheiros agrônomos e técnicos ambientais.

INDICAÇÃO
"Os dados de movimentações das onças servirão não apenas como indicação das áreas importantes de serem preservadas ou restauradas, mas mostrarão como esses predadores utilizam áreas de monocultura, como é o caso de canavial e eucaliptal, característicos não apenas da região, mas de todo interior do Estado de São Paulo", diz a analista de meio ambiente da AES Tietê, Tatiane Cristina Rech.

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